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segunda-feira, 15 de abril de 2019

“Os cavalos brancos de Napoleão” é narrado em terceira pessoa e trata da história de vida do protagonista Napoleão, um advogado de meia idade que sentia-se sempre julgado em sua casa, vendo sua esposa como promotora, os filhos como jurados, tal sua pressão à custa de uma rotina estressante de trabalho, de manter os luxos de sua família, ostentando, com isso, uma posição social de classe média-alta em uma grande cidade.
Sufocado pelo conflito entre o seu desejo íntimo de liberdade e a sua condição de “chefe de família”, em uma viagem ele começa a ver cavalos brancos nas nuvens, que em pouco tempo, passam a aparecer por toda parte. Com isto, ele se fecha em um mundo particular a ponto de viver em função das visões que tem. 
Napoleão é internado em um sanatório, onde sua loucura segue até que...
O texto conversa diretamente com o "mito" do general Napoleão, sua loucura, sua ganância, seu cavalo branco...
O conto nos faz refletir sobre nossas rotinas estressantes, sobre a necessidade de ter e ter... e, claro, a loucura, que é um tema bastante recorrente na obra do Caio Fernando Abreu.
É o primeiro conto do livro O inventário do [ir]remediável.
Imagem: internet

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Todas as sextas-feiras, Ana Karina Silva, do Da Literatura, e eu estaremos publicando sobre a vida de MULHERES ADMIRÁVEIS.

Aproveitem para conhecê-las! 😍

Nossa MULHER ADMIRÁVEL desta sexta é WINNIE MANDELA...

Winnie Madikizela-Mandela, nasceu em 26 de setembro 1936 no Vilarejo de Bizana, na África do Sul e faleceu no dia 02 de abril de 2018.

Formou-se como assistente social e enfermeira em Johannesburgo, sendo a PRIMEIRA MULHER NEGRA ASSISTENTE SOCIAL com diploma da África do Sul.

Indomável e carismática, Winnie tornou-se um importante rosto da luta anti-Apartheid ao assumir a bandeira de seu marido Nelson Mandela na prisão.

Contra todas as probabilidades, tornou-se uma das principais figuras do Congresso Nacional Africano (CNA), a ponta de lança da luta contra o apartheid. Em 1976, convocou os estudantes de Soweto revoltados a "lutar até o fim".

Nomeada vice-ministra da Cultura após as primeiras eleições multirraciais de 1994, Winnie foi demitida por insubordinação pelo governo de seu marido um ano depois.

Winnie foi uma figura polêmica, seu nome esteve envolvido em sequestros, assassinatos e fraudes, chegando a ser condenada a seis anos de prisão.

A ativista é lembrada por sua força e sua luta contra o apartheid e, também, pela libertação de Mandela. Winnie é sem dúvida uma das mulheres mais controversas do seu tempo.

Tem alguma mulher que você gostaria de ver aqui? Manda para gente!





segunda-feira, 8 de abril de 2019



Menino de engenho é uma autobiografia das cenas da infância de José Lins do Rego. Segundo depoimento do próprio autor, a sua intenção, ao elaborar a obra, era escrever a biografia do avô, o coronel José Paulino, a quem considerava uma figura representativa da realidade patriarcal nordestina.O romance foi publicado em 1932 e financiado pelo próprio escritor.

Narrado em primeira pessoa, conta a história de Carlinhos que, após o pai ter assassinado a mãe, vai morar no engenho de seu avô materno.

Pelos olhos saudosistas do personagem vamos conhecendo um pouco sobre a vida no engenho, as tensões sociais envolvidas em um ambiente de tristeza e decadência do ciclo da cana-de-açúcar. 

A obra também traz um tema recorrente no Nordeste, a seca do sertão, onde transparece as dificuldades enfrentadas pelas secas e chuvas em excesso, a perda dos alimentos e de grande parte dos bens materiais do povo.

Percebemos que engenho acaba sendo um personagem no romance, tal sua importância afetiva.

O autor utiliza uma linguagem simples e direta, própria de um menino; caracterizada por ser extremamente espontânea, passando pelos sonhos, medos, curiosidades e amores, a solidão do menino é bastante evidente.

Pela ausência de orientação, aos 12 anos de idade, tem sua iniciação sexual e acaba por contrair doenças sexualmente transmissíveis, que eram comuns e até vistas como uma forma de “troféu”.
Outros pontos que chamam a atenção e podem incomodar, é a fala machista do personagem, assim como a forma romântica que é descrita a situação dos escravos. Em vários momentos somos obrigados a acompanhar um pensamento machista, infelizmente, característico da época e do meio em que ele vive - é muito importante ler com essa consciência do pensamento do período.

Gostei de ver as superstições e crendices comuns que povoavam o imaginário da população, como a crença em lobisomem.

A loucura do pai acompanha o narrador, que tenta interpretar os “maus presságios” que o angustiam. 

Percebemos, também, que os cuidados excessivos da tia o aprisionam: “a minha vida ia ficando como a dos meus canários prisioneiros”, embora sua profunda e verdadeira afeição por ela. 

Como caminho para o menino tornar-se homem, seu avô resolve mandá-lo para o internato, finalizando essa primeira fase do ciclo da cana retratado pelo autor neste romance e nos subseqüentes.

Menino de engenho é uma leitura fluída e gostosa, que vai nos contextualizar com um período de nossa história e levantar questionamentos importantes sobre vários assuntos abordados na obra. 

O romance foi adaptado para o cinema em 1965 por Walter Lima Júnior.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Todas as sextas-feiras, @daliteratura e eu publicaremos uma mulher admirável para você conhecer! Tem alguma mulher que você gostaria de ver aqui? Manda para gente!
Agnès Varda é um nome fundamental da nouvelle vague, cineasta influente na ficção e no documentário, única mulher a ganhar a Palma de Ouro honorária, primeira diretora a ganhar o Oscar pelo conjunto da obra. 
Nasceu em Bruxelas, em 1928, mas foi na França que consolidou seu trabalho como cineasta, deixou este mundo no dia 29 de março deste ano.
É o maior expoente feminino do cinema francês. Sua formação inicial foi em Belas Artes, tendo estudado pintura na escola do Louvre. Seu primeiro trabalho foi como fotógrafa. Gostava de fotografia, mas queria passar a fazer filmes. 
Após alguns dias filmando a pequena cidade pesqueira de La Pointe Courte, na França, para um amigo, Varda decidiu fazer um filme próprio. La Pointe Courte, sobre um casal infeliz que tentava lidar com seu relacionamento em uma pequena cidade pesqueira, foi lançado em 1954 e foi considerado o precursor da Nouvelle Vague francesa.
“É esse o meu projeto: filmar minha mão, com minha outra mão. Entrar no horror. Acho isso extraordinário. Tenho a impressão que sou um animal. Pior: sou um animal que eu não conheço!”
Alguns de seus filmes:
• La Pointe Courte, 1954
• Cléo de 5 à 7, 1962
• As Duas Faces da Felicidade, 1965
• Os Renegados, 1985
• Os Catadores e Eu, 2000
• As Praias de Agnès, 2008
• Visages, Villages, 2017



quinta-feira, 17 de janeiro de 2019



Vamos conversar sobre Roma, o já bastante premiado, filme e um forte candidato ao Oscar...





Acho bastante difícil falar sobre este filme do Alfonso Cuarón porque meus sentimentos são um pouco contraditórios...

Achei um belo filme, poético, com uma fotografia maravilhosa, fui completamente absorvida pelas minhas emoções ao assistir ao filme. Quando olho para ele como uma obra de arte, concluo como um excelente filme; mas, quando olho com um olhar social, várias coisas me incomodam... acabei ficando com a sensação de que a relação da Cleo com a família está muito romantizada, não estou – de forma alguma – dizendo que o diretor não tenha uma forte ligação/sentimento com ela, acho, apenas, que o filme idealiza a relação.

Apesar de ser aparentemente um filme bem simples, com poucas camadas, ele está bem longe disso, é quase um romance de formação. Cuarón não busca mostrar a visão das crianças, em Roma a narrativa acontece a partir do ponto de vista da Cleo (personagem inspirada em Libo – mulher que trabalhava na casa do diretor quando este era criança), mostrando sua relação com o mundo, a sua realidade, tão complexa e sofrida, com cenas fortes, marcantes como a cena da maternidade, por exemplo.

Ao longo das duas horas e quinze minutos deste filme, existem cenas que chegam a ser dolorosas de assistir, por serem reais demais, possíveis demais, trazendo fatos conhecidos, como por exemplo, o massacre de Corpus Christi de estudantes manifestantes na Cidade do México em 1971, vamos sendo absorvidos para dentro da história a ponto de sentir um certo mal estar físico com algumas cenas.

Como uma carta de amor, o roteiro é simples, uma crônica da vida real, onde a narrativa se constrói por fragmentos de memória mesclando a pureza das crianças e da própria Cleo com a crua e cruel realidade dos acontecimentos, nos obrigando a encarar de frente o que geralmente é considerado à margem de todo o resto, além de mostrar o amor e a força de mulheres incríveis.


Ao meu ver, outro ponto forte do filme é a atuação da Yalitza Aparicio que só com seu olhar me encantou...


segunda-feira, 5 de novembro de 2018



Ressurreição - primeiro romance de Machado de Assis - publicado em 1872, obviamente, não é a sua obra-prima, mas já é um livraço!

Embora seja considerado um livro da fase romântica do autor, e apresente algumas características do estilo, percebemos um romantismo contido, moderado, sem os excessos sentimentais, já mostrando aquela pitada ácida que Machado tempera tão divinamente suas obras. É uma leitura rápida, fluída, envolvente, com uma reviravolta e um final (melhor nem falar desse final, só deixo registrado que eu amei!).

Temos aqui um romance psicológico (será o primeiro romance com esse viés escrito no Brasil?), onde, mais importante que a intriga é entender o caráter e o comportamento dos personagens. O próprio Machado, na Advertência da Primeira Edição, avisa: “Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres; com esses simples elementos busquei o interesse do livro.” Ele escreveu o livro inspirado no pensamento de Shakespeare: “Our doubts are traitors, / And make us lose the good we oft might win, / By fearing to attempt” (Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que frequentemente poderíamos ganhar, ao termos medo de tentar) e, vamos combinar, conseguiu: essa frase seria uma boa conclusão para a obra!

Vamos ao enredo: Dr. Félix é um médico de meia-idade que vive dos rendimentos duma herança. É um solteirão. Seus relacionamentos não duram mais do que seis meses, até que conhece Lívia, uma viúva e irmã de seu amigo, Viana. 

A história é narrada em terceira pessoa, por um narrador onisciente, e vai nos apresentando melhor o protagonista, Dr, Félix, um homem inseguro, que junto do seu amor por Lívia, conheceu o ciúme e a desconfiança, ao descobrir que seu amigo, Meneses, também está apaixonado pela nossa heroína (será a semente para criar o Bentinho?)...

Quando tudo parece estar se encaminhando para um desfecho feliz, eis que Félix recebe uma carta, que traz uma grande reviravolta para o desenrolar da trama (cabe aqui dizer que gostei muito da força moral da Lívia)...


Fica claro que o autor teve a intenção de nos apresentar um novo modelo de romance, com uma trama mais psicológica e trágica, ao nos deixar com a seguinte afirmação: “Não a há de alcançar nunca, porque o seu coração se ressurgiu por alguns dias, mas esqueceu na separação o sentimento da confiança e a memória das ilusões”.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Cenário

Passei por essas plácidas colinas
e vi das nuvens, silencioso, o gado
pascer nas solidões esmeraldinas.

Largos rios de corpo sossegado
dormiam sobre a tarde, imensamente,
— e eram sonhos sem fim, de cada lado.

Entre nuvens, colinas e torrente,
uma angústia de amor estremecia
a deserta amplidão na minha frente.

Que vento, que cavalo, que bravia
saudade me arrastava a esse deserto,
me obrigava a adorar o que sofria?

Passei por entre as grotas negras, perto
dos arroios fanados, do cascalho
cujo ouro já foi todo descoberto.

As mesmas salas deram-me agasalho
onde a face brilhou de homens antigos,
iluminada por aflito orvalho.

De coração votado a iguais perigos
vivendo as mesmas dores e esperanças,
a voz ouvi de amigos e inimigos

Vencendo o tempo, fértil em mudanças,
conversei com doçura as mesmas fontes,
e vi serem comuns nossas lembranças.

Da brenha tenebrosa aos curvos montes,
do quebrado almocafre aos anjos de ouro
que o céu sustêm nos longos horizontes,

tudo me fala e entende do tesouro
arrancado a estas Minas enganosas,
com sangue sobre a espada, a cruz e o louro.

Tudo me fala e entendo: escuto as rosas
e os girassóis destes jardins, que um dia
foram terras e areias dolorosas,

por onde o passo da ambição rugia;
por onde se arrastava, esquartejado,
o mártir sem direito de agonia.

Escuto os alicerces que o passado
tingiu de incêndio: a voz dessas ruínas
de muros de ouro em fogo evaporado.

Altas capelas cantam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam-me altitudes e neblinas.

Ó pontes sobre os córregos! ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol frequenta e a ventania gasta!

Armado pó que finge eternidade,
lavra imagens de santos e profetas
cuja voz silenciosa nos persuade.

E recompunha as coisas incompletas:
figuras inocentes, vis, atrozes,
vigários, coronéis, ministros, poetas.

Retrocedem os tempos tão velozes
que ultramarinos árcades pastores
falam de Ninfas e Metamorfoses.

E percebo os suspiros dos amores
quando por esses prados florescentes
se ergueram duros punhos agressores.

Aqui tiniram ferros de correntes;
pisaram por ali tristes cavalos.
E enamorados olhos refulgentes

— parado o coração por escutá-los
prantearam nesse pânico de auroras
densas de brumas e gementes galos.

Isabéis, Dorotéias, Heliodoras,
ao longo desses vales, desses rios,
viram as suas mais douradas horas

em vasto furacão de desvarios
vacilar como em caules de altas velas
cálida luz de trêmulos pavios.

Minha sorte se inclina junto àquelas
vagas sombras da triste madrugada,
fluidos perfis de donas e donzelas.

Tudo em redor é tanta coisa e é nada:
Nise, Anarda, Marília… — quem procuro?
Quem responde a essa póstuma chamada?

Que mensageiro chega, humilde e obscuro?
Que cartas se abrem? Quem reza ou pragueja?
Quem foge? Entre que sombras me aventuro?

Quem soube cada santo em cada igreja?
A memória é também pálida e morta
sobre a qual nosso amor saudoso adeja.

O passado não abre a sua porta
e não pode entender a nossa pena.
Mas, nos campos sem fim que o sonho corta,

vejo uma forma no ar subir serena:
vaga forma, do tempo desprendida.
É a mão do Alferes, que de longe acena.

Eloquência da simples despedida:
“Adeus! que trabalhar vou para todos!…”
(Esse adeus estremece a minha vida.)




Cecília Meireles